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MPT-RJ firma TAC com usina para corrigir falhas da NR-31 no setor sucroalcooleiro

2 de out.
8 min de leitura

Quando uma frente de colheita falha em itens básicos de segurança, o risco aparece rápido: trabalhadores expostos ao calor, transporte inadequado, sanitários insuficientes e rotinas que deixam de cumprir o mínimo previsto em norma. Foi nesse contexto que o Ministério Público do Trabalho no Rio de Janeiro, o MPT-RJ, formalizou um Termo de Ajustamento de Conduta com uma usina de cana-de-açúcar no estado.


O acordo busca a adequação imediata das frentes de colheita, do transporte coletivo e das instalações sanitárias, após fiscalizações apontarem descumprimento de itens da NR-31. A norma trata da segurança e saúde no trabalho rural e estabelece regras específicas para atividades como agricultura, pecuária, silvicultura, exploração florestal e aquicultura.


O caso chama atenção porque mostra uma mudança de postura cada vez mais cobrada no setor sucroalcooleiro: cumprir a segurança do trabalho não como resposta a uma autuação, mas como parte da operação diária. Em atividades com deslocamento, calor, uso de ferramentas, esforço físico intenso e jornadas em áreas afastadas, pequenas falhas podem virar grandes problemas.


Wide-angle view of sugarcane workers in a rural harvest field with shaded rest area nearby
A colheita rural exige estrutura mínima para trabalho seguro.

O que o TAC exige na prática


O Termo de Ajustamento de Conduta, conhecido como TAC, é um compromisso firmado perante o Ministério Público do Trabalho. Ele serve para corrigir condutas consideradas irregulares e evitar que o problema continue. Em geral, o documento define obrigações, prazos e consequências em caso de descumprimento.


No caso envolvendo a usina fluminense, o foco informado está em três pontos centrais:


  • frentes de colheita;

  • transporte coletivo de trabalhadores;

  • instalações sanitárias.


Esses temas não são acessórios. Eles fazem parte da base da NR-31 e impactam diretamente a preservação da saúde, da dignidade e da integridade física de quem trabalha no campo.


Nas frentes de trabalho, a norma exige condições mínimas para que a atividade ocorra com segurança. Isso inclui acesso a água potável, locais adequados para pausas, proteção contra intempéries quando aplicável, orientação sobre riscos e medidas para reduzir exposição a agentes que possam causar acidentes ou adoecimento.


No transporte, a preocupação é igualmente concreta. O deslocamento rural muitas vezes envolve estradas vicinais, longas distâncias e veículos coletivos. A NR-31 e outras regras aplicáveis exigem que esse transporte seja feito com segurança, em veículos adequados, com assentos, proteção e condições que não coloquem trabalhadores em risco durante o trajeto.


Já as instalações sanitárias tratam de um ponto simples e frequentemente negligenciado: higiene no local de trabalho. Banheiros, lavatórios, condições de limpeza e acesso razoável fazem parte do mínimo esperado em qualquer ambiente laboral, inclusive em áreas rurais temporárias ou móveis.


A fiscalização em saúde e segurança do trabalho não observa apenas documentos. Ela verifica se a proteção chega ao chão da operação.

Por que a NR-31 é tão importante no setor sucroalcooleiro


A NR-31 tem papel central no trabalho rural porque traduz os riscos do campo em obrigações práticas. No setor sucroalcooleiro, isso ganha peso extra. A colheita de cana, mesmo com mecanização crescente em parte das operações, ainda pode envolver atividades manuais, deslocamentos frequentes, exposição ao sol, poeira, ruído, máquinas, ferramentas cortantes e esforço físico.


A norma orienta a gestão de riscos ocupacionais para esse tipo de ambiente. Ela exige que o empregador identifique perigos, avalie riscos e implemente medidas de prevenção. Não basta entregar um equipamento de proteção e encerrar o assunto. A organização do trabalho também conta.


Entre os pontos normalmente relacionados à NR-31 em atividades rurais, estão:


  • treinamento compatível com a função;

  • fornecimento e uso correto de equipamentos de proteção individual;

  • controle de riscos em máquinas, ferramentas e implementos;

  • condições seguras de transporte;

  • acesso a água potável;

  • áreas de vivência compatíveis com a atividade;

  • instalações sanitárias adequadas;

  • medidas de primeiros socorros;

  • gestão de riscos químicos, físicos, biológicos e ergonômicos.


No caso das usinas, a aplicação da norma precisa acompanhar a dinâmica real da produção. A frente de colheita muda de lugar. O transporte sai cedo, retorna tarde e percorre rotas variadas. Os sanitários e pontos de apoio precisam chegar onde o trabalho acontece, não apenas existir em uma sede distante.


Esse é um dos desafios mais comuns no campo. A empresa pode ter uma estrutura formal, mas a fiscalização verifica se ela atende a rotina de quem está na lavoura. Se o trabalhador não consegue acessar água, banheiro ou abrigo quando precisa, a proteção não está funcionando.


Eye-level view of a rural transport bus parked near a sugarcane field on an unpaved road
O transporte coletivo rural deve reduzir riscos no trajeto diário.

Fiscalização aponta para uma cobrança mais concreta


A formalização de um TAC após fiscalização indica que os órgãos de controle observaram falhas suficientes para exigir correção. Sem os detalhes integrais do documento, não é adequado afirmar quais itens específicos foram descumpridos além dos pontos já informados. Ainda assim, o recorte divulgado revela onde a atenção se concentrou: campo, deslocamento e higiene.


Esse tipo de atuação tem efeito que vai além da usina envolvida. Cada fiscalização reforça uma mensagem para o setor: cumprir a NR-31 exige presença no local de trabalho, registros organizados e ações verificáveis.


Para empresas rurais, isso significa tratar segurança como parte da gestão da safra. A preparação precisa ocorrer antes do início da colheita e continuar durante toda a operação. Se o ajuste só acontece depois de uma inspeção, o risco já existiu.


Na prática, uma usina que quer reduzir falhas precisa responder a perguntas simples:


  • A frente de colheita tem água potável em quantidade suficiente?

  • Existem sanitários em condição de uso e limpeza?

  • O veículo de transporte é adequado ao número de pessoas?

  • Trabalhadores receberam orientação sobre riscos da atividade?

  • Há controle sobre pausas, calor e fadiga?

  • As ferramentas e máquinas passam por inspeções?

  • A supervisão sabe registrar e corrigir problemas no mesmo dia?


Essas respostas precisam aparecer no campo e também nos documentos. Registros de treinamento, fichas de entrega de EPI, checklists de veículos, controle de limpeza, ordens de serviço e evidências de manutenção ajudam a demonstrar conformidade. Mas papel sem prática não sustenta uma defesa sólida.


Para quem acompanha noticias sst, o caso também evidencia uma tendência: órgãos fiscalizadores olham com atenção para setores com maior vulnerabilidade operacional, grande volume de mão de obra e histórico de riscos ocupacionais relevantes.


O que muda para a usina após o compromisso


Um TAC não é uma recomendação informal. Ele cria obrigações assumidas pela empresa perante o MPT. Se houver descumprimento, podem ocorrer multas previstas no próprio termo e novas medidas legais. Em alguns casos, o não cumprimento de compromissos trabalhistas pode agravar a situação jurídica da empresa e ampliar conflitos com trabalhadores, sindicatos e órgãos públicos.


O compromisso costuma funcionar como uma oportunidade de correção sem que a situação avance imediatamente para uma ação judicial mais ampla. Mas essa oportunidade vem acompanhada de responsabilidade. A empresa precisa demonstrar que corrigiu as falhas e manteve as condições adequadas ao longo do tempo.


No setor sucroalcooleiro, a adequação tende a exigir atuação conjunta de várias áreas da operação rural. Segurança do trabalho, recursos humanos, logística, manutenção e liderança de campo precisam atuar de forma coordenada. Uma falha no transporte, por exemplo, não se resolve apenas no setor de SST. Ela envolve contratação de veículos, manutenção, rotas, controle de lotação, motoristas e rotina de saída.


O mesmo ocorre com instalações sanitárias em frentes móveis. Não basta comprar banheiros químicos ou estruturas portáteis. É preciso definir onde ficarão, como serão higienizados, quem fiscaliza, com que frequência ocorre a limpeza e como trabalhadores comunicam problemas.


Close-up view of a portable handwashing station beside a rural sanitation unit in a sugarcane area
Instalações sanitárias adequadas são parte da proteção no campo.

Pontos críticos que costumam gerar autuações


As fiscalizações em trabalho rural tendem a observar tanto a estrutura física quanto a organização do trabalho. Em frentes de colheita, alguns problemas aparecem com frequência porque dependem de atenção diária.


A primeira área crítica é a água potável. Ela precisa estar disponível, em condições higiênicas e em quantidade compatível com o clima, o esforço físico e o número de trabalhadores. Em atividades sob sol forte, a falta de acesso adequado aumenta riscos de mal-estar e acidentes.


Outra área é o controle do calor e das pausas. O trabalho no campo pode expor trabalhadores a altas temperaturas. A empresa precisa organizar medidas preventivas, orientar equipes e acompanhar sinais de exaustão. O tema exige gestão, não improviso.


O transporte de ferramentas e pessoas também merece atenção. Misturar trabalhadores e instrumentos cortantes sem separação adequada pode criar risco durante o deslocamento. Veículos improvisados ou sem condições de segurança aumentam a chance de acidentes no trajeto.


As instalações sanitárias aparecem como um dos indicadores mais claros de respeito à norma. Banheiro sem limpeza, distante demais ou inexistente transforma uma obrigação básica em violação cotidiana. Isso afeta saúde, privacidade e dignidade.


A documentação fecha o ciclo. Falhas de registro não substituem falhas materiais, mas podem piorar a situação da empresa. Quando não há prova de treinamento, inspeção, entrega de EPI ou manutenção, fica mais difícil demonstrar controle preventivo.


Repercussões para o setor e para a gestão de SST


O caso no Rio de Janeiro serve de alerta para outras empresas do setor sucroalcooleiro no país. Mesmo que cada operação tenha suas particularidades, a lógica da NR-31 é nacional. Usinas, fornecedores de cana e prestadores de serviço ligados à colheita precisam manter padrões compatíveis com a norma.


A terceirização de etapas não elimina responsabilidade. Quando trabalhadores terceirizados atuam em ambiente rural sob influência da cadeia produtiva da usina, a gestão de SST precisa observar contratos, fiscalização de prestadores e integração de equipes. Riscos compartilhados exigem controles compartilhados.


Também há impacto na prevenção de passivos. Ambientes inseguros podem gerar afastamentos, autos de infração, interdições, multas, ações civis públicas e processos trabalhistas individuais. O custo de uma adequação planejada costuma ser menor do que o custo de corrigir tudo sob pressão, com operação em andamento e exposição institucional.


Um bom sistema de prevenção no campo não precisa ser complicado, mas precisa ser constante. A liderança da frente de trabalho deve ter autonomia para interromper uma atividade quando a condição estiver insegura. A equipe de SST deve visitar áreas de produção, não apenas revisar planilhas. A manutenção deve tratar veículo rural como equipamento crítico, não como item secundário.


Também é recomendável que auditorias internas acompanhem a safra. A pergunta mais útil não é “temos o documento?”, mas “o trabalhador consegue usar a proteção prevista?”. Se a resposta for não, o processo ainda falha.


High-angle view of a safety checklist clipboard on a wooden crate near sugarcane tools in a rural field
Registros ajudam, mas precisam refletir a prática real da operação.

Como empresas rurais podem evitar novas falhas


A adequação à NR-31 deve começar por um diagnóstico honesto. Antes de esperar uma fiscalização, a empresa pode mapear suas frentes de colheita e verificar se cada uma delas cumpre requisitos básicos. Esse mapeamento deve incluir locais fixos, frentes móveis, rotas de transporte e pontos de apoio.


Um caminho prático envolve cinco frentes de ação:


  1. Inspecionar o campo regularmente

    A vistoria precisa ocorrer onde o trabalho é feito. Isso inclui água, sombra, sanitários, ferramentas, EPIs, máquinas e condições de acesso.


  2. Revisar o transporte coletivo

    Veículos, motoristas, lotação, assentos, documentação, manutenção e condições das rotas devem fazer parte de uma rotina formal de checagem.


  3. Garantir sanitários adequados e limpos

    A estrutura precisa ser suficiente, acessível e mantida em condições de uso. A limpeza deve ter frequência definida e registro confiável.


  4. Treinar equipes e lideranças

    Trabalhadores precisam conhecer riscos e procedimentos. Lideranças precisam saber identificar falhas e tomar providências imediatas.


  5. Criar resposta rápida para desvios

    Quando uma irregularidade surgir, a correção deve ter responsável, prazo e confirmação no local.


A NR-31 não deve ser vista como uma lista para preencher apenas em auditoria. Ela orienta relações de trabalho mais seguras em um setor essencial para a economia brasileira. Quando uma usina corrige falhas em colheita, transporte e higiene, ela reduz riscos humanos e jurídicos ao mesmo tempo.


O TAC firmado pelo MPT-RJ reforça uma mensagem simples: no campo, segurança precisa acompanhar a frente de serviço. Onde houver trabalhador, deve haver condição digna, prevenção real e gestão ativa. Esse é o padrão que protege pessoas, sustenta a operação e evita que o cumprimento da norma aconteça apenas depois da fiscalização.


 
 
 

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