Atualização da NR 28: impactos da Portaria 1.758/2026 no PGR e nas multas
A atualização da NR 28 muda a forma como empresas devem olhar para seus documentos de Segurança e Saúde no Trabalho. Com a publicação da Portaria 1.758/2026, os critérios de aplicação das multas previstas na norma foram ajustados, com reflexos diretos sobre o Programa de Gerenciamento de Riscos, o PGR.
O ponto de atenção é claro: empresas com atividades de grau de risco 4 tendem a sentir mais o impacto. Nessas operações, falhas no gerenciamento de riscos podem representar exposição maior a acidentes graves e, agora, também maior risco de autuações quando os requisitos legais não estão bem atendidos.
A NR 28 trata da fiscalização e das penalidades relacionadas às Normas Regulamentadoras. Quando ela muda, não se trata apenas de um ajuste administrativo. A mudança afeta a forma como a fiscalização enquadra infrações, aplica multas e avalia a conformidade das empresas.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a análise jurídica ou técnica do texto oficial da norma.

O que muda com a Portaria 1.758/2026
A Portaria 1.758/2026 ajusta critérios de aplicação das multas previstas na NR 28. Na prática, isso significa que a fiscalização passa a ter novos parâmetros para avaliar determinadas infrações e definir penalidades relacionadas ao descumprimento das Normas Regulamentadoras.
A NR 28 funciona como uma ponte entre a obrigação técnica e a sanção administrativa. Enquanto outras NRs definem o que a empresa deve fazer, a NR 28 estabelece as consequências quando esses deveres não são cumpridos.
Com a atualização, ganha força a necessidade de revisar:
a existência e a qualidade dos documentos de SST;
a coerência entre o PGR e a realidade da operação;
os registros que comprovam ações de controle;
a atualização de inventários, planos e procedimentos;
a rastreabilidade das medidas adotadas.
O erro comum é tratar a mudança como algo restrito ao valor da multa. O impacto é maior. Quando os critérios de autuação ficam mais claros ou mais específicos, a fiscalização também tende a encontrar com mais facilidade inconsistências entre o que está documentado e o que acontece no ambiente de trabalho.
Um PGR genérico, copiado de outro contexto ou desatualizado, vira um ponto frágil. Ele pode até existir formalmente, mas falhar naquilo que mais importa: demonstrar que a empresa conhece seus riscos e atua para controlá-los.
A atualização da NR 28 reforça uma mensagem simples: documento de SST só protege a empresa quando reflete a operação real.
Por que o PGR fica no centro da discussão
O Programa de Gerenciamento de Riscos é um dos principais instrumentos de gestão de SST. Ele organiza a identificação de perigos, a avaliação dos riscos ocupacionais e as medidas de prevenção necessárias.
Com os ajustes nos critérios de multa da NR 28, o PGR ganha ainda mais peso porque ele costuma ser uma das primeiras evidências analisadas em uma fiscalização. Quando bem elaborado, mostra que a empresa tem método. Quando mal conduzido, revela falhas de gestão.
A Atualização da NR 28 não deve ser lida de forma isolada. Ela conversa diretamente com a obrigação de manter um processo contínuo de gerenciamento de riscos, e não apenas um arquivo guardado para apresentar quando alguém pedir.
Na prática, um PGR consistente precisa mostrar:
quais perigos existem na atividade;
quem está exposto;
qual é a gravidade e a probabilidade dos riscos;
quais medidas de controle foram definidas;
quem acompanha a execução;
quais registros comprovam as ações;
quando o documento foi revisado.
Esse ponto é essencial para atividades de grau de risco 4. Nesses ambientes, pequenos desvios podem ter consequências sérias. A fiscalização tende a observar com atenção se a empresa mantém controles compatíveis com a criticidade da operação.

O risco do PGR feito apenas para cumprir tabela
Ainda há empresas que tratam o PGR como um requisito formal. O documento é criado, salvo em uma pasta e raramente revisado. Esse modelo aumenta o risco de autuação.
Um PGR frágil costuma ter sinais claros:
descrição vaga das atividades;
inventário de riscos incompleto;
ausência de vínculo entre risco e medida de controle;
cronograma sem responsáveis definidos;
registros de treinamento desconectados dos riscos levantados;
falta de revisão após mudanças no processo produtivo.
Esses problemas não são apenas técnicos. Eles mostram que a empresa não consegue provar, com clareza, como gerencia seus riscos ocupacionais.
Em uma fiscalização, a pergunta não é apenas “a empresa tem PGR?”. A pergunta real é: esse PGR funciona e está atualizado?
O papel das evidências
Documentos de SST precisam conversar entre si. O PGR deve estar alinhado a laudos, ordens de serviço, treinamentos, fichas de EPI, análises de acidentes, permissões de trabalho e procedimentos operacionais.
Quando há conflito entre esses registros, a empresa perde força na defesa. Por exemplo, se o PGR aponta exposição a determinado agente, mas não há controle, treinamento ou registro de entrega de EPI compatível, a inconsistência fica evidente.
A conformidade nasce da soma entre documento, prática e prova.
O impacto maior para atividades de grau de risco 4
Atividades de grau de risco 4 exigem atenção redobrada porque envolvem maior potencial de agravos à saúde e à segurança. Em geral, são operações com máquinas críticas, energias perigosas, altura, espaços confinados, agentes químicos, riscos físicos relevantes ou processos com alta severidade em caso de falha.
Com a Portaria 1.758/2026, empresas enquadradas nesse perfil devem revisar seus controles com prioridade. Não basta ter um PGR tecnicamente bonito. É preciso comprovar que as medidas previstas saíram do papel.
Entre os pontos que merecem atenção estão:
inventário de riscos atualizado;
plano de ação com prazos realistas;
responsáveis claramente definidos;
registros de inspeções periódicas;
evidências de manutenção preventiva;
capacitações conforme os riscos da atividade;
controle de mudanças em processos, máquinas e layout;
investigação e tratamento de incidentes.
A gestão de mudanças é um ponto crítico. Sempre que uma empresa altera processo, equipamento, produto químico, jornada, equipe ou método de trabalho, o PGR pode precisar de revisão. Ignorar essas mudanças cria um descompasso entre o risco real e o documento formal.

Multas não são o único problema
A autuação financeira chama atenção, mas não é o único risco. Uma falha grave de SST pode gerar embargo, interdição, aumento de passivo trabalhista, responsabilização administrativa e danos à reputação da empresa.
Também há o custo operacional. Quando a fiscalização identifica problemas estruturais, a empresa pode ter de parar atividades, refazer documentos, corrigir processos e treinar equipes sob pressão. Isso costuma ser mais caro do que manter uma rotina preventiva.
Por isso, a melhor resposta à atualização da NR 28 é antecipar a revisão. Esperar a fiscalização chegar reduz o tempo de reação e aumenta a chance de inconsistências.
Como revisar o PGR depois da atualização da NR 28
A revisão do PGR deve começar por uma pergunta simples: o documento representa o ambiente de trabalho atual?
Se a resposta não for totalmente segura, há trabalho a fazer.
Um bom caminho é montar uma verificação em etapas, com participação de quem conhece a operação. A área de SST deve conduzir o processo, mas supervisores, manutenção, produção, recursos humanos e lideranças operacionais precisam contribuir com informações reais.
Revise o inventário de riscos
O inventário é a base do PGR. Ele deve refletir as atividades, os perigos, os grupos expostos e as medidas de prevenção. Se o inventário está incompleto, o plano de ação também tende a falhar.
Verifique se houve mudanças recentes, como:
instalação de novos equipamentos;
alteração no layout;
inclusão de produtos químicos;
mudança de turnos;
terceirização de atividades;
alteração em métodos de trabalho;
novos relatos de incidentes ou quase acidentes.
Cada mudança pode alterar o nível de risco e, por consequência, exigir novas medidas de controle.
Confira se o plano de ação saiu do papel
Um plano de ação sem execução documentada é um ponto vulnerável. A fiscalização pode questionar medidas previstas e não implantadas, principalmente se os prazos já venceram.
O plano deve indicar o que será feito, quem responde pela ação, qual o prazo e como a conclusão será comprovada. Registros fotográficos, ordens de serviço, certificados, listas de presença, notas de manutenção e relatórios de inspeção podem servir como evidências, desde que sejam organizados e coerentes.
Atualize treinamentos e ordens de serviço
Treinamentos precisam estar ligados aos riscos reais da função. O mesmo vale para ordens de serviço. Não faz sentido o PGR apontar riscos críticos e a documentação de orientação ao trabalhador tratar o tema de forma superficial.
A empresa deve checar se os trabalhadores receberam informações adequadas sobre:
riscos da atividade;
medidas de prevenção;
uso correto de EPI;
procedimentos de emergência;
restrições operacionais;
condutas em caso de falha ou incidente.
Essa conexão entre PGR, treinamento e prática reduz o risco de autuação e melhora a prevenção.
Como reduzir o risco de autuações
A conformidade não depende de uma ação isolada. Ela exige rotina. A atualização da NR 28 reforça a necessidade de manter SST como processo permanente, com revisão, acompanhamento e registro.
Algumas medidas ajudam a reduzir o risco de autuações:
Medida | Por que ajuda |
Revisar o PGR periodicamente | Mantém o documento alinhado à operação real |
Registrar inspeções e correções | Gera evidências de controle e acompanhamento |
Integrar SST à gestão de mudanças | Evita que novos riscos fiquem fora do programa |
Organizar documentos por tema e data | Facilita respostas em fiscalizações |
Acompanhar ações pendentes | Reduz a exposição a falhas conhecidas |
Treinar lideranças operacionais | Melhora a aplicação diária dos controles |
A empresa também deve evitar um erro comum: concentrar toda a conformidade em uma única pessoa. SST depende de gestão compartilhada. Quando apenas o técnico ou o engenheiro de segurança conhece os documentos, a operação pode não saber aplicar os controles no dia a dia.

Faça uma auditoria interna antes da fiscalização
Uma auditoria interna ajuda a identificar lacunas antes que elas virem autos de infração. Ela pode ser simples, desde que seja objetiva.
O ideal é comparar três dimensões:
Documento
Prática
Evidência
O PGR e os registros dizem que a empresa faz o quê?
A operação realmente executa essas medidas?
Existem provas organizadas de que a ação foi feita?
Quando essas três dimensões estão alinhadas, a empresa fica mais preparada para demonstrar conformidade. Quando uma delas falha, o risco aumenta.
Também vale revisar contratos com terceirizadas, se houver. Atividades de terceiros dentro da planta podem gerar riscos relevantes e precisam estar integradas à gestão de SST. A fiscalização pode observar como a contratante controla os riscos das atividades realizadas em suas dependências.
A resposta deve ser preventiva
A Portaria 1.758/2026 reforça a importância da gestão organizada de SST. Para empresas com atividades de grau de risco 4, o recado é ainda mais direto: o PGR precisa ser atual, aplicável e comprovável.
A melhor postura é revisar documentos, validar controles em campo e corrigir inconsistências antes de qualquer fiscalização. Isso reduz riscos de multas, melhora a segurança dos trabalhadores e fortalece a capacidade da empresa de demonstrar conformidade.
O próximo passo é prático: reunir o PGR, o inventário de riscos, o plano de ação e os principais registros de SST. Depois, comparar tudo com a realidade da operação. Se houver diferença entre o papel e o chão de fábrica, a prioridade deve ser corrigir.
Conformidade não se sustenta apenas por ter documentos. Ela se sustenta quando a empresa consegue provar que conhece seus riscos, controla suas atividades e mantém seus processos de SST vivos.





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